Resenha do Livro Brasileiros Pocotó

Por Cândido Prunes *

Perceber a realidade brasileira, a partir do cotidiano, é tarefa complexa. Luciano Pires, executivo de uma grande empresa no Brasil, conseguiu, no entanto, traçar um quadro preciso sobre a situação nacional em seu livro “Brasileiros Pocotó – Reflexões sobre a mediocridade que assola o Brasil”.

É importante dizer, antes de tudo, que o autor não faz nenhuma crítica político-partidária. Não aponta o dedo para nenhum político ou partido. Trata-se mais de uma análise sociológica, concentrada na cultura dominante e focada nos meios de comunicação de massa, a televisão em particular.

O título do livro é tirado de uma música que fez sucesso nacionalmente (“Minha egüinha pocotó”), não obstante a sua mediocridade melódica, para não falar da letra. O autor não se levanta simplesmente contra a programação televisa de pouco ou nenhum conteúdo. Nem propõe que haja censura (o que seria muito fácil). Suas baterias se concentram contra a falta de alternativas oferecidas ao público. Quase todo o tempo da televisão é destinado a uma “programação pocotó”, como se o telespectador brasileiro fosse um burro profissional em tempo integral e dedicação exclusiva. Por outro lado, o autor também critica aqueles que fecham os olhos para a porção do país que cresce e dá certo. Como se, ao dar conhecimento de que é possível progredir, o resto do país pudesse ser “contaminado” e sair da letargia e da miséria que em parte se encontra.

Um dos aspectos mais importantes do livro é mostrar a verdadeira lavagem cerebral a que nossos estudantes de primeiro e segundo grau são submetidos. Fora o conteúdo ideológico do material didático – altamente questionável, mas isso já seria outra história – as escolas não se preocupam mais em ensinar o estudante a pensar, a ter juízo crítico. É preciso cultivar uma legião de “alunos pocotó” para que músicas como a da “egüinha” possam “estourar” nas paradas de sucesso. Nesse sentido é particularmente interessante a passagem em que o autor narra uma experiência durante o antigo “Projeto Rondon”. Numa cidade perdida no sertão, o autor do livro, então jovem universitário no início dos anos 70, entra numa sala de aula em que uma professora, recém saída da adolescência, alfabetizava seus alunos. No quadro negro, várias palavras grafadas erroneamente, entre as quais um gritante “poblema”. Fora assim que essa professora aprendera, e, assim como ela, centenas, talvez milhares, por esse Brasil afora. O descaso oficial com o ensino, ao longo das últimas décadas, é uma das razões para o sucesso do “pocotó”.

Embora o autor não se conforme com a mediocridade que assola o país, o livro está longe de ser mal-humorado ou amargo. Ao contrário, a linguagem é agradável e inúmeras e engraçados charges o ilustram. E é fácil de ser adquirido. Está sendo vendido também em bancas de jornais e revistas.

Quem deseja entender o “poblema” do Brasil e o porquê da expansão incontrolável da mediocridade encontrará farto material nesse livro. Como o autor demonstra, lastimável não é que a “Minha egüinha pocotó” seja tocada nas rádios e faça tanto sucesso. É que tanta gente a aprecie, por simples ignorância e por não ter outra alternativa. Apesar de tudo, termina-se a leitura do livro com uma ponta de otimismo, pois o Brasil de um Vila Lobos, um Vinícius de Moraes ou um Tom Jobim não pode perder para uma egüinha pocotó.

* Vice-Presidente do Instituto Liberal


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